quinta-feira, 18 de junho de 2015

Atendimento em Saúde da Pessoa com Deficiência Visual (Por Givaneide Maria)

        A prestação de serviços de saúde com qualidade técnica e relacional é um dever de todos os profissionais dessa área. A partir disso, buscou-se investigar a qualidade desses serviços ofertados à pessoa com deficiência visual em Petrolina-PE. Assim, foi realizada uma entrevista com Givaneide Maria da Costa (conhecida como Gil), professora de Braille do Centro de Reabilitação Visual(CRV) desde 2002, com o intuito de conhecer um pouco mais sobre as suas experiências nos serviços de saúde. Ela sofreu de perda gradativa da visão desde os 12 anos devido à neurocisticercose ( infecção causada pela forma cística da tênia do porco), adquirindo a deficiência completa aos 18 anos. A conversa com Gil aconteceu no CRV, no dia 18 de junho de 2015.
     



        Diante do que foi visto, podemos identificar alguns cuidados que indicam maneiras mais eficazes de ofertar um atendimento de qualidade à pessoa com deficiência visual:

1) Identifique-se e descreva-se fisicamente; dirija-se à pessoa para saber o que a faz procurar o serviço, mesmo que ela esteja com acompanhante;
2) Descreva detalhadamente o ambiente, além da existência de degraus, pisos escorregadios, buracos e obstáculos. Conduza-a por meio de noções de lateralidade (direita e esquerda);
3) Se for guiar a pessoa cega, deixe-a segurar em seu cotovelo, ombro ou punho. Não a empurre nem a puxe. Mantenha-se sempre meio passo à frente dela.
4) Descreva qual(is) procedimento(s) será(ão) realizado(s) e qual(is) tipo de contato físico vai exigir, se for necessário.
5) Quando precisar sair do ambiente, avise à pessoa, pois ele pode não perceber a sua saída e continuar a falar contigo.

“Nunca ajude sem perguntar antes como deve fazê-lo.”



Postado por: Luanna Cavalvanti e Cássia Poliana.

O médico é cego: E pode???

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram de você.” (Sartre)

Por Clarisse Mendes e Marília Jardim


Sartre foi muito feliz ao escrever essa frase. No nosso cotidiano podemos ver várias pessoas que seguem a essência que essa frase reflete. Há certos momentos da nossa vida onde nos deparamos com perdas e dificuldades das mais diversas formas e em princípio muitas pessoas acreditam terem perdido o sentido da vida, e não importa o quão grande seja o nosso esforço, não depende de nós alterarmos tal acontecimento. Cada um de nós irá lidar com a situação de uma forma. Alguns utilizam o acontecimento para se tornarem pessoas ainda melhores e servirem de exemplo para outras de como é possível dar continuidade a vida mesmo com alguma restrição. Outros utilizam das dificuldades para se revoltarem contra a vida.  Um exemplo de situação que pode desencadear os mais diversos sentimentos e reações é quando o sujeito desenvolve uma deficiência. Para muitos a vida parece se tornar incapacitante, para outros representa um recomeço de modo diferente.

Falando em deficiência e superação, resolvemos contar pra vocês um pouco da vivência de Pedro Russo. Um jovem que com 23 anos, estudante de medicina e cheio de planos para o futuro, viu um tumor cerebral mudar sua vida completamente ao se tornar deficiente visual. Mas não pense que o jovem Pedro abandonou seus planos por causa disso. Hoje ele é médico, residente de psiquiatria (isso mudou um pouco porque na graduação ele desejava ser ortopedista), estuda, trabalha, luta jiu-jitsu, namora, tem muitos amigos e continua sua vida social como antes da perda da visão.
Na entrevista abaixo podemos ver um pouco de como tudo aconteceu e como ele lida com a situação.

Confira!

1.     Fale um pouco sobre você:
Meu nome completo é Pedro Cerqueira Russo. Eu tenho 27 anos. Moro em Jaboatão dos Guararapes, com meus pais e minhas duas irmãs. Eu sou médico. Trabalho e faço residência médica em psiquiatria pela Prefeitura da cidade do Recife. Eu estudo geralmente pelo computador num programa que é mais falado, ele lê tudo que eu passo a seta por cima. O nome do programa é JAWS* e é um programa pra realmente quem é deficiente visual.

2.     Fale um pouco sobre a sua deficiência:
Sobre a minha deficiência, eu tenho baixa visão, decorrente de um tumor cerebral. Não foi por conta do tumor diretamente, foi por conta de uma hipertensão intracraniana que esse tumor ocasionou. E aí depois da cirurgia sai normal e uma semana depois fui perdendo a visão rapidamente. Em relação a quanto tempo eu não decoro direito, mas eu vou fazer quatro anos dessa deficiência em outubro. Eu comecei no início, antes de operar, tendo uns apagões na visão. Não comecei da forma clássica que seria dor de cabeça e tal. Eu tinha apagões na visão e aí procurei o médico e foi visto essa questão do tumor.

3.     Você disse que tem baixa visão, então não tem a cegueira total. Pelo que você disse ainda consegue escrever, mesmo que com alguma dificuldade. Qual o grau que você ainda consegue enxergar?
É estranho o que eu vejo. Eu consigo enxergar tudo, quando eu foco num certo instrumento, um objeto que eu quero, eu consigo ver o objeto todo. Não vejo vulto, vejo a imagem da pessoa, mas vejo borrado. Vejo cores. E quando eu vou escrever, eu tenho que escrever cheirando o papel, e ler a mesma coisa, se eu for ler alguma coisa. É mais ou menos isso assim. Eu vejo a imagem da pessoa normal, mas o rosto todo embaçado, eu não sei que é você. Eu consigo sim preencher os prontuários onde eu trabalho, de como se eu fosse uma pessoa normal, porque eu me adaptei, mas se eu não tivesse me adaptado, não tivesse ninguém que chegasse pra mim e falasse ‘aqui é tal coisa, aqui é o nome do paciente, aqui é a prescrição do paciente’, eu não saberia. Preencho porque uma pessoa previamente já tinha me dito isso.

4.     Quais as maiores diferenças na sua vida que você percebe do antes e depois da deficiência?
Acho que muita coisa mudou na minha vida depois dessa deficiência. Em relação aos amigos eu sinceramente não percebi muita coisa não, até porque eu nunca tive nenhum problema em relação a amizade. Nenhum amigo meu se afastou de mim por conta dessa deficiência. Até porque eu vou pra todos os lugares, nunca deixei de ir pra nada. Acho que minha namorada também me ajuda muito nesse sentido. Ela me acompanha muito em tudo, então nunca tive nenhum problema em relação a ir pra algum lugar ou deixar de ir pra algum lugar por conta disso. E minha família era menos preocupada, não me procurava tanto, hoje em dia ela já liga pra caramba, fica mais preocupada de tal e eu entendo. Minha mãe principalmente. Minha vida mudou, meu estudo também. Eu era mais independente e hoje em dia eu preciso de alguns recursos pra estudar. Hoje em questões de estudo algumas coisas eu não consigo estudar por conta que é com folha e tal, mas aí eu peço pra uma pessoa digitalizar pra mim e aí, sinceramente, eu não vejo dificuldade. Obstáculo vai ter com certeza, dificuldade tenho muito mais do que qualquer pessoa, mas quando a pessoa vai atrás, se eu for atrás realmente daquele livro, daquele assunto pra estudar eu vou atrás e consigo. Claro que com uma velocidade menor do que uma pessoa normal, entendeu? Minha vida mudou, mudou muito. Mudou muito pra mim.

5.     Você sofreu ou sofre algum tipo de discriminação?
Bom... eu acho que nunca é igual, ? Por mais que você tente disfarçar e tudo. A princípio quando a pessoa me vê assim de longe não consegue notar que eu sou deficiente visual, eu acho. Mas quando fica prestando atenção nas minhas atitudes, no meu comportamento, fala assim: ‘rapaz, esse bicho tem alguma coisa estranha, mas não sei o que é!’. Por parte da pessoa nunca senti nenhum tipo de discriminação não. Por parte de trabalho e tal as pessoas a princípio ficam desconfiadas. Então eu tenho que demonstrar minhas qualidades e provar que essa deficiência não vai influenciar em nada no nosso tratamento ou em alguma coisa que iria causar algum malefício.

6.     Para você estudar, quais as dificuldades que você encontra e quais recursos que você utiliza?
Estou fazendo a minha residência. Atualmente sou R2, segundo ano de residência. No estudo muita coisa tem na internet, então eu sinceramente não tenho tanta dificuldade assim. Porque como eu falei anteriormente, eu estudo tudo pelo computador. A minha dificuldade é achar essas coisas na internet. Eu tenho dificuldade pra achar, procurar, pesquisar na internet, porque eu ainda não me acostumei com o programa. Mas quando acham e me mandam eu não tenho dificuldade. Porque assim, o estudo é só eu estudo, agora em vez de ler eu escuto. Mas quando só tem livros eu tenho que mandar pra uma pessoa e essa pessoa digitaliza a página pra mim, bota em PDF ou Word, pra eu poder ler. É uma mão de obra maior e preciso de mais tempo. Tenho (dificuldades), mas eu consigo driblar com isso aí, minimizar as perdas. Mas é difícil, não vou dizer que é fácil não.

7.     No meio social quais são as maiores barreiras (físicas e atitudinais)?
Das barreiras físicas eu tenho muito que falar, no sentido de calçadas, estrutura, acessibilidade que aqui no Recife é praticamente zero. É muito ruim. Eu tenho baixa visão e já sofro, imagine pra quem é cego total. Em relação às barreiras sociais eu pensava que iria ser muito mais discriminado, mas eu vejo que hoje em dia aqui, pelo menos aqui em Recife ainda tem muita gente boa. Porque tem muita gente que quer fazer o bem, que é atencioso e eu não tinha essa ideia. Eu pensava que ia ser muito discriminado e muita gente não iria me ajudar. Mas pelo que eu vendo eu sou muito bem acolhido nos lugares. As pessoas se preocupam realmente com quem é deficiente, apesar de eu não parecer, quando eu falo, o tratamento é outro. Porque as pessoas, não sei, tem pena ou... Já sofri algumas coisas, algumas atitudes porque não pensavam que eu era deficiente visual e que eu tava brincando. Por que ele falou ‘como é que tu, deficiente visual, e tá olhando diretamente pra mim?’. Aí não acreditavam, (dizia) ‘deixe de tua onda, que tu não é cego’. Mas eu tiro isso muito de boa, não tenho nenhum problema em relação a isso não. Na vida profissional é mais complicado, porque quem tá contratando quer realmente ter a garantia de que eu realmente sou bom, fica querendo ou não perguntando mais do que o normal. Tipo: ‘será que ele é bom mesmo?’, aí fica perguntando as pessoas que são atendidas por mim, ou então fica perguntando a outros profissionais se eu sou bom mesmo e como é, aquela ansiedade. Em relação as instituições que eu trabalho, realmente nenhuma é preparadas, nenhuma tem acessibilidade pra o deficiente visual e nem para deficiente físico de uma maneira geral. Isso é triste, mas é a realidade daqui, do Brasil, não só de Pernambuco. Eu fiz o seguinte, ou eu me adequo ou então eu saio. A instituição é muito difícil de adequar a mim, então eu acabei me adequando aquelas instituições. Aqueles papéis para preencher, formulários, protocolos daquela instituição, eu decorei tudinho e aí hoje em dia nas instituições que eu trabalho eu já sei tudo decorado. Então eu não tenho problema em relação a isso não. Mas foi difícil pra mim, seria muito mais fácil se o serviço se adaptasse a mim. Mas como a gente sabe que a realidade daqui é outra, eu me adaptei ao serviço.

 


8.     Sobre a dificuldade no acesso das pessoas com deficiência na área de saúde e você sendo um profissional da saúde. Qual a sua vivência nesse setor e o que você pensa sobre isso?
Eu sinceramente não tive nenhum problema em relação a médico. Eu não sei se é porque eu tenho plano de saúde e o tratamento no serviço particular é diferenciado, mas eu não senti nenhuma discriminação por parte dos médicos. Não sei se é porque é companheiro, mas eu não senti uma discriminação. Por parte dos psicólogos acho que quem tem uma dificuldade maior são os deficientes auditivos, porque tem que se comunicar por libras. Realmente os médicos de uma maneira geral não tem essa qualificação de se comunicar por libras. E a respeito da psicologia eu não tive problema em relação a conversar com alguns deles. Hoje em dia não faço terapia por conta da carga horária da faculdade, da residência, infelizmente, mas quando fazia antes de entrar na residência eu nunca tive nenhum problema. Agora como profissional de saúde eu tento fazer a maior acessibilidade do público deficiente, mas sei que é difícil. Eu até tenho uma empatia melhor quando a pessoa é deficiente também. Quando surge uma oportunidade até falo que também sou deficiente, pra criar uma empatia melhor com o paciente e tal. Ele vê que não é só ele que é deficiente, que o médico dele também é deficiente e pode, porque ele não pode?!

9.     Você falou que fazia terapia. Você começou essa terapia após perder a visão?
Antes de perder a visão eu não era tão assim tão compreensivo. Eu mudei bastante, minha personalidade, meu jeito de ser mudou bastante depois dessa deficiência. Depois da deficiência eu mudei muito o meu jeito de ser e meu jeito de ver a vida. E aí todo mundo falava ‘rapaz, faça terapia’ e eu ainda era muito resistente a fazer terapia, como a maioria das pessoas ainda ignorantes são ainda resistentes. E eu era muito resistente, eu só fiz depois desse problema. Sou muito feliz por ter feito. Não faço mais porque numa rotina muito pesada.

10.  Quais são suas perspectivas para o mercado de trabalho?
Acho que hoje em dia como qualquer outro profissional eu penso em ser concursado, ter algum concurso público, pra ter certa estabilidade financeira, ter certa segurança. Porém, eu não fecho a possibilidade também de ensinar, ser preceptor em alguma residência médica de psiquiatria. E quero também ter meu consultório. Trabalho na parte de álcool e drogas hoje em dia. Pretendo fazer alguma especialização em álcool e drogas e trabalhar com isso no futuro. Converso muito com outro psiquiatra, que também é deficiente visual, o nome dele é Gustavo Arribas, e ele me orienta muito nesse sentido e a gente conversa bastante. Acho que no meu futuro eu vou mais colar nesse cara (risos). As perspectivas para o futuro são boas. Acho que as pessoas a princípio ficam com medo, como eu falei, mas ninguém percebe que eu sou deficiente visual. Só percebe que eu sou deficiente visual no final da consulta quando eu vou prescrever alguma medicação que aí eu praticamente cheiro a página, cheiro o papel, escrevo bem pertinho. Mas a letra sai correta. Aí no final é que falam ‘doutor, o senhor não enxerga direito não?’, aí eu ‘é, eu tenho problema de visão’. Não fico expondo muito minha deficiência, mas quando perguntam eu falo. Pra o futuro como uma pessoa normal eu vou querer crescer na minha carreira. Quero fazer consultório e concurso público. Só não sei na questão do trabalho como vai ser. Ainda não sei como vai ser a aceitação no concurso, mas eu acho que não terei grandes problemas porque até hoje sempre me adaptei bem aos serviços. Claro que preciso de um tempo pra ver a papelada, pra decorar algumas coisas. Como sempre o serviço nunca se adequa a mim, eu que tenho que me adaptar ao serviço. Eu vou demorar um pouco a mais, alguns dias pra me adaptar, mas depois da adaptação acho que vai ser tipo vida normal entre aspas. Preciso de um apoio maior do que outro médico, uma técnica, alguma coisa um pouco mais próxima a mim. Mas tirando isso eu acho que não vou ter grandes dificuldades não.

11.  Você aprendeu braile?
Eu já falei com vários deficientes visuais. Uns falam ‘é arretado o braile, aprenda!’, agora outros falam ‘eu já aprendi braile, já desaprendi umas dez vezes’. Eu já tenho meu computador e hoje em dia tudo é feito pelo computador. E, sinceramente, não tenho nenhum interesse em aprender braile. Porque hoje tudo é no computador, tudo é digital. Tudo o que eu quiser escrever eu consigo escrever realmente. E o que eu quero ler, eu não preciso ler em braile, eu boto no computador que é muito mais fácil. Hoje em dia também minha rotina é muito corrida e eu não tenho tempo pra parar e aprender braile. Também se eu tivesse tempo eu não sei se eu aprenderia. Acho que aprenderia mais como um plus pra minha vida.

12.  Quando perdeu a visão teve algum tipo de resignação, revolta? Qual foi sua reação?
Falando um pouco da parte médica, eu tive um papiledema, é como se fosse um inchaço dentro do olho. E aí a maioria dos médicos falava ‘Pedro, tu tá assim porque tu tá com papiledema, quando o papiledema ceder, ou seja, quando desinchar, tu vai voltar a ver normal’. Então eu sempre tive essa esperança. E quando chegou um médico e falou ‘vai ser assim pra o resto da vida’, eu acho que dentro de mim eu já sabia que ia ser assim, mas eu sempre tinha uma esperança de que ia voltar (a enxergar). Quando chegou esse dia eu mais ou menos que já sabia que não ia melhorar. Foi um pouco de baque pra mim, mas no fundo eu acho que já sabia.

13.  Comentários finais:
Infelizmente a discriminação ainda acontece. Comigo um pouco menos porque eu acho que não aparento tanto ter um grau de deficiência como eu tenho. E sempre ando com alguém, ou minha namorada ou meus familiares, então isso aparenta menos. Eu não sei se isso é um mecanismo de defesa que eu tenho. Eu não sei se eu ainda consi... tenho três anos e pouco de deficiência, não sei se ainda me aceitei como deficiente visual. Porque eu não uso bengala, então eu sinceramente ainda tenho que trabalhar muito isso dentro de mim. Ainda é tudo muito recente pra mim. Em um lugar que eu conheço eu ando tudo normal. É engraçado. Até eu acho estranho porque nem eu me acho deficiente visual quando eu conheço um lugar. Tudo é muito diferente comigo, não sou um deficiente visual tradicional. Passo por muitas dificuldades, tipo muita coisa que eu não percebo. A fisionomia de uma pessoa quando eu num lugar, não sei se ela tá achando ruim, se ela não tá. Eu só percebo com a fala das pessoas. A dificuldade existe, ainda é muito grande. A discriminação por parte das pessoas também existe, também é grande. Mas sinceramente eu tive uma experiência boa. As pessoas todas me acolheram muito bem, sempre fui bem recebido nos lugares que eu vou. Quando eu falo que sou deficiente visual, todo mundo fala ‘não, é não’, mas quando vê realmente sabe que é e o tratamento é outro. Acho que tem algumas pessoas que não acolhem muito bem, mas depois que vê que realmente é, aí cai em si e ficam com aquele peso na consciência e vem pedir desculpa. Mas eu levo isso de boa.



*JAWS (Job Access With Speech) é um "screen reader”, um programa de computador para usuários com deficiência visual. Esse software é composto por um sistema que lê as informações dispostas na tela e por um sintetizador de voz para reconhecer comandos executados pelo usuário. Com o auxilio deste software, pessoas com deficiência visual podem usufruir dos recursos de informática e navegação na internet com mais facilidade e sem auxilio de terceiros. O software conta com diversos atalhos de teclado para facilitar a navegação do usuário. Também pode ser usado com um hardware de linhas de braile, para substituir a leitura de tela.

DEFICIÊNCIA VISUAL

Por Clarisse Mendes e Marília Jardim


Existem dois tipos de deficiência, a congênita e a adquirida. As deficiências congênitas são as que provêm do nascimento e as adquiridas são as adquiridas ao longo da vida. As formas com que essas deficiências podem ser adquiridas são diversas, indo desde problemas de saúde a violências variadas. No Brasil, segundo dados do Censo 2010, 23,9% da população residente no país possuía pelo menos uma das deficiências investigadas: visual, auditiva, motora e mental ou intelectual. A deficiência visual apresentou a maior ocorrência, afetando 18,6% da população brasileira; em segundo lugar ficou a deficiência motora, ocorrendo em 7% da população; seguida da deficiência auditiva, em 5,10% e da deficiência mental ou intelectual, em 1,40%.
A deficiência visual é definida como perda total ou parcial, congênita ou adquirida, da visão. Essa deficiência abrange um amplo espectro de possibilidades, desde a cegueira total até a parcial. De acordo com o Decreto nº 3.298/99 e o Decreto nº 5.296/04, é considerada deficiência visual:
  • Cegueira – na qual a acuidade visual é igual ou menor que 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica;
  • Baixa Visão – significa acuidade visual entre 0,3 e 0,05 no melhor olho, com a melhor correção óptica;
  • Os casos nos quais a somatória da medida do campo visual em ambos os olhos for igual ou menor que 60°;
  • A ocorrência simultânea de quaisquer das condições anteriores.

A inclusão das pessoas com baixa visão só ocorreu a partir da edição do Decreto nº 5.296/04. A cegueira é a perda total da visão ou com uma pouquíssima capacidade de enxergar e a baixa visão é o comprometimento do funcionamento visual dos olhos. As pessoas com baixa visão são aquelas que, mesmo usando óculos comuns, lentes de contato, ou implantes de lentes intraoculares, não conseguem ter uma visão nítida. Essas podem ter sensibilidade ao contraste, percepção das cores e intolerância à luminosidade, dependendo da patologia causadora da perda visual.
A família sendo a base do desenvolvimento do ser humano tem papel primordial para fortalecer as condições para crescimento da pessoa com deficiência. O apoio da família e de cuidadores é essencial no processo de desenvolvimento e adaptação da pessoa com deficiência para que ela possa enfrentar as diversas situações e se sentir aceito. O que de fato, em um primeiro momento pode ser encarado como uma experiência desgastante poderá se modificar desde que seja criado nessa família um espaço de desenvolvimento e que sirva de suporte para a pessoa com deficiência.
Diferente do que se constrói na visão preconceituosa da sociedade, a deficiência não significa que o indivíduo é um sujeito incapaz. A incapacidade existe na sociedade que não está preparada para receber essas pessoas da forma adequada. A pessoa com deficiência pode se desenvolver a partir dos seus outros sentidos e tentar compensar aquele que lhe falta. Mas a sociedade e o meio social precisam estar dispostos a incluir essa pessoa, começando a quebrar as barreiras físicas, sociais e, principalmente, as atitudinais. A pessoa com deficiência, assim como qualquer uma que não tenha, pode se desenvolver nos mais diversos aspectos: no trabalho, no esporte, nas relações afetivas, etc.
Cabe aos profissionais de saúde também se adequarem a esse público. É preciso ver para além da deficiência que esses sujeitos também necessitam ir ao médico, ao dentista, ao psicólogo. Que lhes acometem os mesmos males que acometem aos demais, e eles vão precisar procurar ajuda, e é imprescindível que eles encontrem essa ajuda. No caso do psicólogo ele precisa estar preparado para trabalhar com o sujeito as interfaces dele com a sua deficiência, mas não pode se limitar a isso, pois o sujeito é muito maior que isso. É preciso estar preparado para trabalhar com as mais diversas formas do sujeito subjetivar-se.
Fica aqui a esperança de que um dia a inclusão feita não seja apenas colocar as pessoas no mesmo lugar, mas realmente integrar os indivíduos independentemente das suas diferenças.


REFERÊNCIAS:

BATISTA, Sérgio Murilo; FRANÇA, Rodrigo Marcellino. Família de Pessoas com deficiência: Desafios e superação. Revista de divulgação técnico-científica do ICPG, v.3, n.10, Jan-Jun. 2007. ISNN 1807-2836

OLIVEIRA, Maria Luiza Borges. Cartilha do Censo 2010 – Pessoas com Deficiência. Brasília: SDH-PR/SNPD, 2012. Disponível em: <http://www.pessoacomdeficiencia.gov.br/app/sites/default/files/publicacoes/cartilha-censo-2010-pessoas-com-deficienciareduzido.pdf> Acesso em 17 jun 2015.

Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Decreto Nº. 3298, de 20 de dezembro de 1999. Regulamenta a Lei no 7.853, de 24 de outubro de 1989, dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3298.htm> Acesso em 17 jun 2015.

Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Decreto Nº. 5296, de 2 de dezembro de 2004. Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2004/decreto/d5296.htm> Acesso em 17 jun 2015.

A deficiência e o livro sensorial

Desde sempre a deficiência existe e está presente em todos os lugares, trazendo assim os questionamentos: onde estavam essas pessoas? Por que se ouvia falar tão pouco? Onde estão esses registros? São muitos as perguntas que intrigam quando se é parado para analisar. Essas pessoas desde então eram rejeitadas e, contudo, rejeitadas a ponto de não serem expostas a sociedades, por serem vistas como aberrações, criaturas sagradas e até mesmo como fardo para aqueles de convívio familiar. Desde os primórdios até as etapas de evolução do Homem existem registros dessas pessoas, nas pinturas rupestres (onde desenhos apresentavam faltas de algum membro do corpo).
Trazendo a deficiência para a teoria social e levando em consideração os estigmas, foi então que o conceito de deficiência foi redefinido para modelos particulares de opressão como mulheres ou negros que até o século atual, lutam por direitos e a conquista desse espaço e autonomia, não sendo diferente da pessoa com deficiência. Os corpos que eram marcados por sinais ou lesões, passando a deficiência a ser entendida depois de algum tempo, por modelos biomédicos, como qualquer diversidade física. O fato é: essas pessoas que possuem essa falta visível em seu corpo estão presentes no mundo; o que devemos levar em conta é que essas pessoas apenas possuem formas diferentes de existir, e a sociedade acaba por não entender isso, fazendo-se deficiente – a sociedade - nessa questão, pois as pessoas existem, o que falta é que todos saibam percebe-las e lidar com elas levando em conta cada especificidade, conseguindo enxergar a pessoa que está além da deficiência.
Segundo DINIZ (2007), as instituições eram vistas como uma forma de retirar essas pessoas do convívio familiar e depois “normaliza-las” e devolve-las para a família ou sociedade. Partindo do pressuposto de que todos temos direitos, a proposta da inclusão escolar é romper com essa discriminação e exclusão da pessoa com deficiência, e integrar no contexto escolar onde possam expandir suas capacidades de aprendizagem e de desenvolvimento desses indivíduos. Na última década, considera-se deficiência “... toda perca ou anormalidade de uma estrutura ou função psicológica, fisiológica ou anatômica que gere incapacidade para o desempenho de atividades, dentro do padrão considerado normal para o ser humano” (BRASIL, 2004). O trabalho com as pessoas deficientes, requer um quebrar de barreiras diante dos desafios, já que o profissional tem que mudar sua concepção em trabalhar com elas dentro de suas especificidades, dando a esse indivíduo a construção de sua identidade, autonomia, o saber se comunicar devidamente e se relacionar.
A dificuldade de aprendizagem nesse aspecto sensorial pode comprometer, as informações que recebemos através dos sentidos, indica quantas coisas não valorizamos ou tomamos como corretas quando não são comprometidos. O sentido do tato mesmo, informa sobre a solidez, forma, peso ou maciez. O olfato informa se o objeto tem cheiro ruim ou doce. Já o paladar diz sobre a acidez, doce, salgado e amargo. O sentido de distância é considerado como: a visão e audição; a pessoa que utiliza da visão trabalha cores, distância e percepção. Já a audição exercita o ouvir do timbre, volume e tom.
Com a prática e podendo visitar uma instituição, nos deparamos com a proposta do livro sensorial. O livro sensorial funciona como estimulador, esse tipo de livro trabalha com a verbalidade dando a autonomia recriando a narrativa do sujeito e sensorial trabalhando com diversos materiais que auxiliam dando novos sentidos e permitem o desenvolvimento de habilidade psicomotoras. Para sua confecção é indicado que se trabalhe com materiais em alto relevo, que desenvolva noções da realidade do indivíduo tais como: direção, tamanho, preenchimento e texturas.
            As vantagens e a finalidade de trabalhar com o livro é que estimula a criatividade, aquisição de conceitos e a coordenação motora da criança. Simula atividades do dia-a-dia, como amarrar os tênis, fazer o laço, assim como também as outras atividades como: o contar, movimento de pinça, aprender o horário, saber diferenciar as formas geométricas, ligar os pontos a partir das cores, tudo isso de forma lúdica e divertida.
            A contribuição da produção desse livro, foi fundamental pois não tínhamos informações, nem conhecimento a respeito dele, e também a possibilidade de fazer um trabalho manual para poder contribuir para o desenvolvimento de algumas crianças que vão utilizar, foi uma expansão acerca das diversas formas que podemos encontrar para lidar com as especificidades de cada um e que não trabalha somente um sentido em especifico, mas dependendo da produção possibilita que se trabalhe com todos eles. Acrescentamos em muito, vivendo e experienciando as coisas que só nossa vivencia pode explicar, olhando o outro colocando em prática o pouco da nossa aprendizagem dentro da imensidão de coisas que a Psicologia ainda pode nos proporcionar, sabendo distanciar nossos preconceitos, aprendendo também a desconstruí-los, suspender nossos valores e atitudes e poder voltar nossa atenção e concentração para o fenômeno a nossa frente.
Docente: Karla Daniele Maciel Luz
Discentes e postagem por: Ravena Araújo e Yasmin Karla
Referências
BRASIL. Decreto n. 5.296, de 2 de dezembro de 2004. Regulamenta as Leis n. 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 3 dez. 2004
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d3298.htm. Acessado em 15/06/2015 as: 11:19.

DINIZ, D. O que é deficiência. São Paulo: Brasiliense, 2007.

Disponível em: http://www.larpsi.com.br/media/mconnect_uploadfiles/c/a/cap_01_70_.pdf. Acessado em 15/06/2014 as: 12:13

ANEXO

Universidade e Diversidade



Pensar sobre a deficiência é pensar sobre uma forma de existir no mundo. Deficiência é diversidade.
Ainda são poucas as pessoas com deficiência que estão no ensino superior, e as que estão, será que são incluídas e de fato participam das atividades tendo a sua forma de aprendizado respeitada?
É necessário incluir não apenas proporcionando estar no espaço acadêmico, mas respeitando a diversidade e as diferentes formas de aprendizagem e de viver no mundo.
A deficiência está no ambiente, e não nas pessoas. Não é a pessoa que tem que mudar e se adaptar, é a sociedade.

Postado por: Daniele Azevedo e Maiara Nascimento